Portes: Compras até 19,99€ - 3,90€ | De 20€ a 34,99€ - 1,89€ | Grátis desde 35€

Quem te olha do espelho?

Hoje proponho um exercício!
Fecha-te no teu WC ou quarto, liga todas as luzes e fica em frente ao espelho, olha-te e sobretudo vê-te!
Agora, pergunto: quem vês? 
Proponho este exercício, porque o fiz no outro dia e… aquilo custou um bocadinho mais do que esperava. Foi uma experiência dolorosa mas que se revelou muitíssimo positiva.

Porque é que decidi falar sobre isto hoje?
Porque mais uma vez fui bombardeada com aqueles anúncios “consegue o teu corpo de sonho”, “com estes produtos podes ter o rosto com que sempre sonhaste”, “o corpo que todas vão invejar”, “vais ficar um assombro e virar todas as cabeças na rua”! Ora até parece que todas estas marcas, empresas e afins sabem que o meu rosto não é o do outro mundo, que o meu corpo não é de sonho e que a únicas cabeças que viro na rua são as do meu marido e do meu filho quando os chamo! 😀 

Quer isto dizer que não sou suficientemente linda, suficientemente jeitosa, suficientemente cuidada, suficientemente bem feita, suficientemente perfeita?
Não, não sou! Não sou perfeita em canto nenhum do mundo!
Mas a pergunta que faço e que devemos fazer é: não sou suficiente para quem?! Quem é a entidade ou a pessoa que tem de me validar? Quem é que tem de avaliar e aprovar o que valho? Eu sou apenas o que se vê? 

E é por estas perguntas que vos proponho o exercício de que falei acima. Por isso, voltemos a ele. Vou partilhar convosco a minha experiência neste exercício, que fiz há umas semanas, numa manhã em que antes de sair de casa tive tempo, mais tempo do que o habitual para me arranjar.

Quem vi ao espelho?

– vi uma mulher com quase 37 anos, de pele amarelada, com manchas, algumas rugas e já a vislumbrar pés de galinha (assim ainda muito ao longe :D). Vi uma mulher de olhos castanhos banais, com olheiras de muitas noites dormidas aos soluços (graças ao miúdo, mas fiquem cientes de que estou a apontá-las todas e na adolescência irei vingar-me), sobrancelhas assimétricas (já que sou eu que as faço e sabe-se lá porquê nunca ficam iguais), nariz normal (nem pequeno, nem grande, nem penca, nem narizinho), lábios normais, queixo normal, rosto miúdo de formato quadrado e umas orelhas pequenas mas cheias de personalidade (vamos colocar as coisas assim, para não dizer que são orelhas de abano em tamanho XS).
Vi uma mulher de pescoço baixo, cabelo curto e pintado de loiro para esconder os brancos.
Abaixo dos ombros a história continua, a pele está mole, e há “bifes” em sítios onde nunca houve; há mais área, mais banha, mais estrias, celulite e várias cicatrizes. Há mais de mim em todo o lado!

Agora a pergunta que quero mesmo que respondas:

– Quem é a mulher que está em frente ao espelho?

Porque essa mulher pode não ser a mulher que vês ao espelho!

A mulher que está em frente ao espelho e que o espelho não reflete é orgulhosamente filha, irmã, tia, cunhada, amiga, esposa e mãe. É uma profissional empática, empenhada, dedicada, leal e preocupada (e estas caraterísticas são sempre suas, não são para trabalho, são para a vida). É uma otimista que gosta de antever todo e qualquer cenário mau, mas que mergulha de cabeça naquilo a que se propõe. Nunca foi neta, nem sobrinha, mas descobriu-se uma mulher de família!

Esta pessoa teve mais altos e baixos do que desejaria, a vida levou-a ao tapete vezes demais, mas nunca ficou K.O., reergueu-se tantas quantas as vezes que foi ao chão. Voltou sempre mais forte, mais compreensiva, mais empática, mais generosa, mais grata, mais ela própria.Este corpo viveu uma infância feliz, mas com 2 ou 3 momentos muito duros; um crescimento abrupto e uma adolescência desconfortável.
Este corpo viu irem e virem quilos, aparecerem marcas que não mais vão desaparecer.
Este corpo foi ninho de um bebé de mais de 4kg e para que de lá saísse foi mesmo preciso ir buscá-lo, foi alimento, aconchego e parque infantil deste bebé nestes últimos 4 anos.
Este corpo foi campo de batalha e é fortaleza. 

Mas este corpo não me define, a sua forma, o seu tamanho não me definem.
O rosto que vejo ao espelho não me define e não me reflete.
A embalagem é só isso mesmo, uma embalagem.
Não mostra a pessoa que realmente sou, mas é um mapa da vida que vivi até hoje.

Se lido bem com o meu reflexo todos os dias? Não e não tem mal!
Não tem mal se sou alta ou baixa, magra ou gorda, se o meu nariz é assim ou assado, se o cabelo está branco, pintado, curto ou comprido!
Não há mal se tenho olheiras, manchas, os dentes tortos ou não!
Não faz mal se há estrias, bifes, celulite, pernas, braços e rabo pouco definidos!
Não faz mal se a barriga tem estrias, cicatrizes e está mole!
Não tem mal porque isso é só a embalagem, o verdadeiro eu está lá dentro.
O meu corpo tem saúde, tem-me valido e sido forte todos estes anos, por isso é suficiente para mim. Se é perfeito? Não.
Se há coisas que posso fazer para que seja melhor? Sim. Se me apetece? Nem sempre, e não tem mal nenhum.Se tenho o rosto mais bonito do mundo? Não. Se tenho uma beleza consensual? Não, e não tem mal nenhum. Porque gostos não se discutem e mesmo não me achando uma mulher linda, não há nada que mudasse no meu rosto (e quem me conhece sabe o que as manchas me desgostam). Eu sou linda para mim!

Quem me conhece sabe que costumo dizer que “o que importa é ter saúde e ser feliz”. Saúde tenho e ser feliz, até que sou. Mas isto de ser feliz para sempre é um canseira desgraçada, dá um trabalhão e tem avanços e recuos. E isso para mim é o suficiente.
Saber que tenho de trabalhar se quiser ser feliz, que esse trabalho incluí respeitar os outros, os meus e sobretudo respeitar-me. Esse é o caminho – o respeito. E saber que não tem mal o que os outros pensam, dizem ou postam sobre a sua perfeição. Eles não me definem, eles não são suficientes para me avaliarem e validarem.
Eu sou suficiente. 

Por isso, neste exercício: olha-te, vê-te e acha-te!
Tu és linda! Tu és tu, única, especial.
Descobre o tens de fazer para seres quem queres ser e faz por isso – mas se hoje não te apetecer, não tem mal nenhum! 

Porque tu és suficiente.

Tu fazes o mundo mais colorido, fá-lo um sítio melhor.

Por Sandrina Fernandes

Leave a Comment